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ano a ano


2006

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Sobre a edição 2006

Um ponto de vista sobre o mundo é um ponto de vista sobre o cinema. Se há que esperar dum filme que veicule um ponto de vista sobre o mundo, haverá também que lembrar, hoje, a importância da asserção quase inversa: no ruído audiovisual contemporâneo, a utilização produtiva dos meios do cinema reclama um ainda maior compromisso, uma ainda maior exigência e uma ainda maior clareza sobre o próprio lugar do cinema no mundo actual. Tanto quanto um ponto de vista sobre o mundo, o surto de produção de imagens reclama um ponto de vista sobre o cinema enquanto parte consequente de uma visão do mundo.

O seminário de 2006 incluirá exemplos disso, obras e autores que marcam território e que, como tal, nos servirão de âncoras numa viagem por alguns pólos do cinema contemporâneo. Começando com filmes em que é mais sublinhada a existência de um princípio construtor por trás de cada plano, passar-se-á depois sobretudo pelas metodologias recentes do cinema directo.

Neste último caso, propor-se-á uma confrontação de diferentes dispositivos de filmagem, e incluir-se-á uma abordagem analítica de vários parâmetros: tratamento do espaço, tratamento do tempo, manipulação da câmara, som, montagem.

A edição de 2006 obedecerá a uma nova grelha de debates, organizada em três níveis: conversas a dois em torno de obras específicas; exposição temática em torno de dispositivos formais; debate alargado.
Edição 2006

Transcrição dos debates

Nono debate, debate final


18 JUNHO, DOMINGO

Na mesa:
José Manuel Costa (JMC)
Nuno Lisboa (NL)

JOSÉ MANUEL COSTA: Nas primeiras edições do Doc’s Kingdom, acabámos sempre com uma conversa sobre a própria experiência do encontro e as lições a tirar dele, e queremos fazê-lo ainda desta vez. Quem nos tem acompanhado sabe que temos insistido no facto de se tratar de um modelo aberto, em que há que ir experimentando mudanças, e em que tem havido mudanças. O que estamos a fazer é tentar introduzi-las sem quebrar a intenção inicial. À partida, essa intenção obrigou a algumas escolhas básicas. Para fazer um seminário de reflexão sobre o cinema, víamos pelo menos dois caminhos alternativos. Um deles teria sido optar por aquilo a que se pode chamar o seminário académico, em que o papel decisivo cabe não tanto aos realizadores ou ao diálogo com eles, mas aos investigadores, historiadores, críticos, que são convidados a co-programar ou simplesmente a moderar sessões temáticas (são conhecidos os modelos para isso). Outro – e foi o que escolhemos – era a aposta num encontro mais coloquial, vivo, imprevisível, em que o grupo de participantes é convidado a reagir aos filmes em conjunto e de forma cumulativa, em que é dado um papel importante ao contacto com os próprios realizadores, e em que a moderação dos debates ou o lançamento de questões a debater não visam propriamente uma circunscrição a temas predefinidos. Este segundo modelo é menos fácil de estruturar – antes de mais porque se torna muito dependente da possibilidade real de ter connosco os realizadores, o que por sua vez leva a confirmações de programa normalmente tardias – e acarreta riscos evidentes quanto à dinâmica das conversas, e à maior ou menor produtividade delas. Nos últimos anos, houve aqui debates muito oscilantes em termos de produtividade, houve resultados muito desiguais e, como seria de esperar, houve críticas fortes, sobretudo à maneira como esses debates foram orientados (ou justamente ao facto de serem “pouco orientados”). É portanto nesta área que estamos a tentar encontrar um caminho, tentando perceber o que poderá ser este modelo, e o que é que nele tem de ser sacrificado, ou não, para que possa ser melhorado. Este ano, como foi dito no início, esforçámo-nos por, apesar de tudo, focar mais os debates, sem propriamente os limitar. Para conseguir isso, uma das coisas em que insistimos menos (em relação aos anos precedentes) foi nas conversas entre os próprios realizadores, começando por centrar mais os diálogos entre eles e os animadores convidados, antes de passar à discussão alargada. O diálogo aberto à sala, o convite à participação de todos, é para nós essencial. Mas é também nesta abertura que, obviamente, pode haver mais riscos de deriva. Seja o que for que vá acontecer no futuro, sentimos portanto que está tudo ainda muito em aberto e que, como tenho dito, em certa medida deveria mesmo continuar sempre em aberto...
Há um outro ponto que quero sublinhar. Quem esteve nesta edição desde o primeiro dia terá reparado que houve ecos de algumas conversas no decurso das seguintes. Cito só um exemplo. No primeiro debate aqui decorrido – sobre o filme do Pierre-Marie intitulado Encontros, que era também um título emblemático para abrir o seminário... – o Cyril insistiu muito na questão da relação do cinema com o tempo, o que é filmar um “presente” que, no exacto momento em que é filmado, está a tornar-se “passado”, o facto de o cinema ser sobretudo uma arte da passagem... Houve depois um bom troço do debate sobre o filme do Pedro Costa, Juventude em Marcha, em que se falou outra vez disso, de qual é o tempo em que aquelas pessoas estão, de qual é o “tempo do filme”... Quando a certa altura se referiu que toda aquela comunidade é filmada como se estivesse a viver um tempo anterior, estávamos outra vez muito perto do tema do Cyril... Depois, curiosamente, no dia seguinte, quando discutimos os filmes da Catarina Mourão e do Pedro Sena Nunes, foi ainda algo ligado a isso, ou que remete para isso, que voltou completamente ao de cima, quando se abordou o facto de aquelas comunidades, ou aqueles bairros, estarem eles próprios ameaçados por um fim iminente, entre uma “história” passada e um futuro “sem futuro”, levando à discussão sobre qual era verdadeiramente o tempo deles que era representado no filme... E depois ainda, talvez de uma maneira mais subtil, um tema semelhante voltou nalguns momentos no debate com Frederick Wiseman... Ora, para mim, isto foi um exemplo típico do que pretendíamos com a ideia do debate cumulativo, e portanto da vontade de que o seminário decorresse – como até agora sempre decorreu – entre um só grupo e numa só sala... Esta última escolha acarreta outros limites, na medida em que a eventual divisão em grupos mais pequenos, em todo o seminário ou em parte dele, poderia também trazer benefícios, justamente no grau de participação de cada um, no aprofundamento dos temas, etc... Há vários encontros internacionais que evoluíram nesse outro sentido, e não temos sobre isso uma posição rígida para as edições futuras... Mas é sobre tudo isto que, mais uma vez, gostaríamos de vos ouvir...

BRAM RELOUW: Eu estive cá nos dois últimos anos – esta é a terceira vez. Este ano, o que funcionou realmente bem (e foi uma mudança, comparando com as edições anteriores) foram os workshops, e ter um ou mais realizadores presentes a falar de um único aspecto do filme. É mesmo possível concentrarmo-nos numa questão, ou num problema teórico, ou numa forma de operar a câmara, ou seja o que for. Também gostei muito da sessão de debate com os filmes do Wiseman, e da abordagem dele, começando por interrogar o público sobre o que achou, dando depois a sua própria opinião e entrando realmente em diálogo. Em vez de ter simplesmente o realizador a explicar o máximo que consegue e depois passar ao público, é uma boa abordagem começar por interrogar o público e depois continuar com o debate.

JOSÉ CARLOS ABRANTES: Julgo que é bom ter cá um realizador com um trabalho tão sólido como o Wiseman, que tem a capacidade de pôr as pessoas a pensar sobre as imagens. Por outro lado, é bom o esquema do seminário estar em aberto, haver lugar para inovações como, por exemplo, ter investigadores sobre um determinado tema. O mais interessante é verificar a diversidade de modos na organização dos debates, a diversidade de filmes e de perspectivas. Valia a pena desenvolver o projecto dos filmes feitos por crianças. Faz-me alguma confusão que haja poucas pessoas de Serpa a participar no seminário; sei que é muito difícil – dada a especificidade dos filmes – mas julgo que podia ser feito um esforço maior nesse sentido.

JMC: Só uma nota sobre isso, antes da próxima intervenção. Esse foi para nós um assunto importante, desde a primeira edição. À partida, há que sublinhar que estamos profundamente agradecidos a esta comunidade, ao “lugar” que nos acolhe quando fazemos o seminário. Creio que, a pouco e pouco, estes encontros estão a ganhar uma identidade de que o lugar faz parte. Por isso mesmo, temos reflectido muito sobre as formas possíveis para integrar mais a comunidade local. É uma área em que estamos longe de ter feito tudo o que está ao nosso alcance... Acho que temos que fazer muito mais, e o facto de a organização ainda ter fraquezas estruturais de todo o tipo tem tido consequências nesse atraso. Por outro lado, achamos que isso tem de ser feito ao nível da preparação do seminário e de um trabalho mais largo em torno dele, e não tanto da eventual conversão do projecto. Julgo que há que assumir completamente o projecto básico da iniciativa, que é o de fazer um encontro internacional sobre os caminhos do cinema contemporâneo centrado no espaço do documentário, o que não é a mesma coisa que um seminário temático, e menos ainda de temática regional – o que também não impede que, como de resto já aconteceu, não incida pontualmente nela... O facto de termos voltado a incluir a sessão sobre o tema da iniciação ao cinema é, no fundo, a nossa maneira de dizer que é em grande parte por aí que essa ponte pode e deve ser construída – pelo trabalho com comunidades jovens, com as escolas, e portanto ao nível do que poderá, a prazo, ter incidências ao nível da formação de novos públicos. Mas não quero também deixar de lembrar a importância que sempre teve para nós a organização de iniciativas fora do espaço do auditório, e as pontes com pessoas e entidades locais que têm sido consolidadas desse modo... Enfim, tocou num ponto essencial.

PIERRE-MARIE GOULET: Há um ponto que lamento em relação à primeira edição do Doc’s Kingdom, que era a proposta que o José Manuel fez, aos realizadores que apresentavam o seu trabalho, de escolher um filme que não era deles e sobre o qual iam falar. Isso permitia abrir imenso o debate sobre o cinema, e não especificamente sobre como se tinha feito tal plano, que técnica tinha sido utilizada, etc. Permitia ligar o trabalho de um realizador com a história do cinema, possibilitava também a abertura para filmes de ficção, e não ficar no gueto do documentário.

JOSÉ CARLOS ABRANTES: Poderia tentar-se, em vez de uma interpretação da obra pelos realizadores ou por quaisquer comentadores, uma leitura que fosse feita primeiro pelas pessoas da sala, uma coisa do tipo atelier de leitura de imagem.

BRAM RELOUW: Seria interessante ter um realizador à conversa com outro realizador. Por exemplo, mostrar dois filmes, ter um realizador a fazer perguntas ao outro sobre o seu filme e vice-versa. Primeiro, pode-se ver os filmes, para se conhecer as visões de ambos, e depois pode-se tê-los lado a lado debatendo a visão deles sobre os próprios filmes, sobre o cinema e sobre os filmes uns dos outros.

PIERRE-MARIE GOULET: O sistema de um realizador falar do filme de um outro realizador presente funciona bastante mal. No caso do primeiro seminário, o Pedro Costa escolheu o filme de Jia Zhangke (que não estava presente) – Xiao Wu, Artisan Pickpocket [1997], e foi evidente que, falando de Jia Zhangke, o Pedro falava também dele próprio e do seu cinema. Era isto que eu achava interessante: a ligação de um realizador que, falando de outro cineasta, fala de si próprio.

CYRIL NEYRAT: Uma das grandes qualidades deste seminário é a precisão e a maneira muito prática de abordar directamente os métodos de trabalho – enquanto que tantos outros seminários deste género se dirigem, de imediato, para uma espécie de debate teórico, onde se deixa de saber do que se fala. Mas isto pode tornar-se numa armadilha (o que vai ao encontro do que o Pierre-Marie disse): o seminário não pode dissecar maneiras de fazer, e fazer com que cada discussão fique aí encerrada. A ideia é tentar perceber os caminhos que se abrem ao documentário, estar verdadeiramente ao corrente do que vai surgindo, saber quais são hoje as diferentes potencialidades do documentário. Os filmes estavam por vezes um pouco sós – por exemplo, no segundo dia, o trabalho sobre o cinema etnográfico: os dois filmes estavam bastante próximos no seu posicionamento essencial em relação à realidade, quando o que eu teria gostado era que um dos filmes, com o mesmo objectivo, partisse de um método radicalmente diferente. É necessário pensar numa maneira de aproximar coisas mais afastadas, de forma a evitar cair numa discussão demasiado técnica, demasiado concentrada em detalhes do fazer. Aproximar objectos muito diferentes seria uma maneira de aproximar as questões práticas das teóricas.

SERGE MEURANT: A tarde consagrada ao documentário português foi a única em que senti isso. Se, nessa sessão, se tivesse ido buscar, por exemplo, o Pierre-Marie Goulet, isso teria aberto a conversa, a propósito dos filmes mostrados, das práticas e temas abordados. Foi aí que tivemos a impressão não somente de filmes isolados, como de uma categoria de filme, de uma escola. Chamando ao debate outros componentes do cinema português, o filme do Pierre-Marie Goulet e o do Pedro Costa, teríamos obtido uma ligação mais alargada com o conjunto da programação.

INÊS OLIVEIRA: Cada filme e cada realizador sugerem um debate. O debate deve ser adaptado a cada filme que é visto, e isso foi óbvio neste seminário.

KEES BAKKER: Vou tentar fazer um resumo da última semana, de como a vivi em comparação com os outros anos. As discussões e suas introduções nos primeiros dias foram bastante interessantes, com contribuições do público que funcionaram bastante bem. Já não foi assim na quinta de manhã, quando estiveram cinco realizadores e dois moderadores na mesa, e o público foi gentilmente convidado a não colocar questões. O problema não foi tanto haver cinco realizadores, mas o facto de, enquanto membro do público, só ter visto um dos filmes de que se falava. Fiquei muito à margem da conversa. A contribuição do Frederick Wiseman e o tipo de análise cinematográfica que fizemos com ele ontem foram maravilhosas. Mostra como ele encara os seus próprios filmes, mas especialmente a forma como pensa enquanto os faz. Uma coisa de que sempre gostei no Doc’s Kingdom são os vários estilos de debate, seja conferência, análise cinematográfica ou discussão aberta. Acho que isso se deve manter. É muito importante ter diversidade na abordagem para assegurar a dinâmica que procurávamos desde o início.
Um aspecto, apontado sobretudo pelo Pierre-Marie, é que não se deveria confrontar os realizadores uns com os outros. Não tenho a certeza disso, mas depende muito da audácia dos realizadores presentes. Não me importo quando são críticos ferozes, como tivemos o ano passado. O problema é quando a crítica se baseia em preferências que são muito pessoais, e temos simplesmente de aceitar o ponto de vista da outra pessoa. Não me importava se houvesse mais oposições durante as discussões.
Por último, mais sobre a estrutura do programa: alguns filmes estavam muito isolados. Quanto ao resto, senti-me muito bem em Serpa. Fui muito agradável não ter projecções todas as noites, para podermos falar e discutir em pequenos grupos.

JMC: Acho que em toda esta conversa há um tema em que vale a pena insistir, e isolo-o porque tem sido um debate permanente entre nós, e nomeadamente com o Pierre-Marie, que é a questão do diálogo entre realizadores e do diálogo com os realizadores. Acho que foi muito importante o Pierre-Marie ter feito a distinção, porque de facto são duas coisas diferentes. Nós tentámos, na primeira edição e na segunda, que houvesse uma interlocução directa entre realizadores, pensando sobretudo que seria interessante e produtivo pôr realizadores de gerações e de experiências muito diferentes a conversar entre si. Isso nem sempre funcionou bem. Houve mesmo um caso em que um realizador sofreu tanto com esse desafio que a certa altura teve que sair do auditório, e desapareceu durante praticamente um dia, não por estar zangado com alguém, mas por ter sentido como uma enorme violência esse pedido para abordar o trabalho de colegas... Acho que a melhor e, no fundo, a única resposta é aquela que já foi dada: cada caso é um caso e pede um método diferente, e há que estar atento às diferenças. Mas há de facto uma outra hipótese de trabalho a considerar, que levanta problemas de ordem diferente, e que é a hipótese de sugerir aos realizadores convidados que escolham previamente outros filmes para exibição, e que comentem esses filmes que eles escolheram, que podem aliás ser de ficção, ou de outras épocas... A ideia é tentadora, e a única coisa que posso dizer é que exige uma estrutura de programação que não tem sido aquela que temos podido seguir. Ou seja, seria preciso que houvesse um trabalho com mais antecedência, e confirmações de presença com mais antecedência, para nos permitir, ainda a tempo, construir um programa com sentido... E há sempre, claro, a questão da limitação temporal, que volta a trazer a opção de dividir ou não o grupo em vários grupos em várias salas... Há que ver as hipóteses de testar outros modelos.
Outra coisa em que eu queria insistir é que estamos a fazer um esforço grande para não fechar o seminário a correntes ou estilos, ou a uma visão estrita do documentário. Este ano foi um caso evidente... Quando, pela primeira vez, falei com o Pedro Costa sobre a possibilidade de ele vir aqui, a primeira coisa que ele me disse foi: “Mas tens a certeza que queres o filme? O filme já está muito longe do documentário...” É óbvio que ele nunca quis falar dos seus filmes em termos de documentário ou ficção, e nunca falou aliás do No Quarto da Vanda como documentário... Mas, neste caso, também é óbvio que sentia que o filme podia já estar muito longe da área que trabalhamos aqui... E eu disse-lhe que tinha a certeza absoluta que queríamos ter o filme, e que não havia qualquer problema por esse trabalho ir no sentido daquilo a que normalmente se chama ficção. O outro lado disso foi com La Dernière Lettre do Frederick Wiseman: optando por mostrar apenas dois filmes dele, um deles era uma rara incursão num terreno ficcional que, nesse caso, o próprio autor considera ser um território outro. Para nós isso nunca foi um problema, porque era também isso – as pontes, as zonas limítrofes, as zonas de contacto – que nos interessava enquanto potencial da área histórica do documentário.

Já quanto à questão de integrar filmes do passado, filmes clássicos e filmes da ficção clássica, é outra questão em aberto, na qual não há qualquer tabu, mas que temos evitado por mera razão de economia – e em última análise de coerência, porque a fazê-lo gostaríamos que tivesse um papel claro, não acessório. Mas estamos a discuti-lo. Haveremos de tentar experiências nessa área, sem deixar de tentar manter a identidade primeira do encontro, que, repito, não nasceu como encontro temático ou académico. A primeira e última regra deste seminário é tentar estar atento aos filmes que se fazem e, em vez de os condicionar a uma “tema”, partir justamente da vontade de os interrogar, de ver “o que é que eles nos querem dizer”. Pode ser que em edições próximas venhamos a ensaiar mais sugestões temáticas de partida. Mas os pontos de chegada, esses, dependerão sempre da dinâmica do grupo de participantes.

NUNO LISBOA: Todos os documentários assinalaram muito claramente as potencialidades e as limitações das escolhas que foram feitas, nomeadamente, a necessidade do não isolamento dos filmes – isso é sempre uma estratégia: a iluminação mútua de uns em relação aos outros, num percurso que deve ser coerente mas não tem necessariamente que estar completamente estruturado; a necessidade da discussão das questões do fazer mas também o seu fechamento.

IVO FERREIRA: Em relação ao lugar do Doc’s Kingdom em Serpa, as projecções ao ar livre foram a única altura em que a comunidade esteve envolvida. Depois, queria só lembrar que teve sempre uma influência muito interessante ter filmografias não ocidentais presentes, porque o próprio discurso dos realizadores acabava por provocar outro tipo de discussão e outro olhar.

MADALENA MIRANDA: As experiências no lançamento de temas, como a questão do cinema directo, ficaram à margem de uma verdadeira discussão, como diz o Kees Bakker. Também senti que teria valido a pena descobrir a família cinematográfica do Wiseman, por ser um universo tão completo, tão coerente. E isto ao encontro daquilo que disse o Pierre-Marie: tentar trazer outros filmes. Para mim, foi importante quando o Pedro Costa trouxe o Pickpocket: percebi mais coisas sobre ele, mais relações. Também senti falta de mais filmes (apesar de termos o filão Wiseman a explorar), de descobrir no Doc’s Kingdom – como já tinha acontecido – coisas novas.

ANTÓNIO ESCUDEIRO: A escolha dos filmes portugueses foi um pouco repetitiva: tinham sido vistos muito recentemente, quer no Doc Lisboa quer no Indie – acho que não cabiam aqui (e com a presença do Pedro Costa, se calhar, perderam força). A escolha dos dois filmes portugueses seguintes baixou um bocado o nível do festival.

JMC: É importante falar sobre a questão do cinema português. No início pensámos o seminário como uma coisa alternada, um ano era internacional, no outro era só para o que está a acontecer aqui. Depois desistimos disso, e, para já, estou contente por ter desistido, porque era muito artificial e quebrava o ritmo. Se temos a ambição de fazer um seminário internacional, há que tentar inseri-lo pelo menos numa agenda europeia, e para isso é preciso criar um ritmo. Por outro lado, as edições portuguesas não funcionaram assim tão bem, havia logo a vontade de descobrir mais coisas, de pôr os filmes em diálogo com outros contextos, e portanto não fazia sentido. Quanto à inclusão de filmes portugueses neste encontro internacional, isso tem que estar em harmonia com a economia e o carácter da selecção geral. A ideia é assumir uma escolha, mas fazê-la depender do que vai acontecendo cada ano. Já temos feito “ante-ante-estreias” – isto é, sessões que são possíveis dado o carácter restrito do seminário e que antecedem as próprias ante-estreias – e é evidente que os filmes estão aqui pela representatividade que lhes reconhecemos e não por corresponderem a uma corrente ou a um gosto particular. A selecção não é só uma escolha de gosto, porque o que queremos é justamente que, na medida em que isso vá fazendo sentido em cada ano (tendo em conta a coerência do programa geral) quem esteja a fazer as obras representativas do cinema documental português, exactamente como quem vai marcando o panorama internacional, vá passando por aqui... O critério básico é ser forte, ou representativo, não necessariamente de “todo” o documentário, ou de “todo” o cinema, mas de uma área que valha a pena estudar. Como alguém dizia no outro dia, não se trata do guia Michelin para dar estrelinhas aos filmes, trata-se de escolher títulos representativos para trabalhar a variedade de caminhos do cinema documental contemporâneo, ou do cinema em relação ao qual a contiguidade com o documentário tem sido decisiva.

SUSANA SOUSA DIAS: Em relação à questão dos filmes portugueses, acho que um dos problemas foi a falta de cruzamentos. Arrumaram-se os filmes do Pedro Sena Nunes e da Catarina Mourão no mesmo dia, e teria sido mais interessante cruzá-los com filmes de diferentes áreas, por exemplo. E senti que foi um programa pouco intensivo, o que vem ao encontro do que a Madalena disse.

ANTÓNIO ESCUDEIRO: Foi muito importante exibir aqui o Natureza Morta [Susana Sousa Dias, 2005], um filme que foi menosprezadíssimo pela crítica. O facto de ter sido exibido aqui é uma real compreensão do que é que o filme significa para o cinema português e para a história recente de Portugal.

JMC: Sobre a intensidade do programa, tem-se falado bastante. Recebi críticas, nos últimos anos, a dizer que o programa era intenso demais, e que as pessoas nunca tinham tempo para conversar entre elas, porque estávamos sempre a correr dum lado para o outro... É claro que isso volta a trazer a discussão da concentração de todo o seminário num único programa, numa só sala... É uma questão crucial num encontro como este. Eu volto sempre ao exemplo dos encontros de Lussas, em França, um dos acontecimentos europeus que nós achávamos mais interessantes quando começámos o Doc’s Kingdom, e que começaram com uma coisa muito mais pequena, numa zona recôndita do país, e que dez ou quinze anos depois contará talvez com umas dez mil pessoas, que se dividem por cinco ou seis lugares de projecção paralelos, com eventos paralelos. Aqui ainda não quisemos fazer isso, e temos absoluta noção de que, no dia em que o fizermos, resolvemos muitos problemas, mas também quebramos uma das características que tem feito a identidade do seminário... Essa é “a” questão em aberto. Pode ser que a própria dinâmica do evento conduza a isso, mas, por agora, estamos a tentar manter essa diferença. E, mantendo-a, não há muitas alternativas quanto à quantidade dos filmes exibidos... Neste tipo de encontro, continuando a apostar na ideia de um só grupo, é vital apostar numa agenda “orgânica” que dê tempo às pessoas. Nestas últimas edições, esse tempo tem sido a noite, o que me parece coerente e dá alguma respiração. Mas é claro que há que continuar a experimentar soluções variadas.

ANDRÉ DIAS: Tenho a sensação de que isto devia ser um seminário de trabalho, o que faz com que, em primeiro lugar, não se possa, por muito grandiosos que os autores sejam, deixá-los à solta. No caso do Pedro Costa, isso aconteceu – era preciso ter cortado rente o seu discurso, e isso implicava um trabalho de leitura da nossa parte. No caso do Wiseman, aconteceu um pouco o inverso: houve muitas perguntas mas muito repetidas, e perguntas a que ele já respondeu milhares de vezes. O facto de ser um seminário que tem a ver com a dinâmica da actualidade cinematográfica (mesmo o Wiseman tinha aqui um filme recente), faz com que estejam cá os autores, que nos coloquem sempre nessa direcção. Mas os filmes não têm que ser filmes completamente actuais. Era bom haver uma sessão menos ligada à actualidade, e mais ligada a um programa (como tentaram este ano, com o cinema directo), as pessoas assim já vêm preparadas. Há que conjugar as duas situações.

JMC: Acho que isso é uma boa maneira de terminar esta conversa. É evidente que o espaço de auscultação dos participantes não se limita a esta sessão. Façam-nos chegar os vossos comentários Agradeço-vos a todos e podem estar certos de que vamos continuar a experimentar...
 


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