O que pode o cinema ainda fazer quando a omnipresença de imagens fê-las perder a sua capacidade de perturbar? Quando o vínculo entre imagem e ação parece ter sido rompido? O seminário Doc’s Kingdom 2026 parte destas questões para uma reflexão mais ampla sobre as condições de produção, divulgação, e recepção de imagens em tempos de expropriação acelerada e de brutalidade colonial genocida.
Assim, o programa inspira-se no trabalho de cineastas comprometidos com a imaginação revolucionária e com a reflexão sobre imagens históricas—que anteriormente se acreditava poder transmitir tal imaginação. Inspira-se ainda nas formas coletivas e comuns que nunca foram propriedade de uma única pessoa ou entidade, e na opacidade das imagens como reivindicação política. Em conjunto, os filmes dos cineastas evocam cinco séculos de resistência mesoamericana à violência colonial, evocam o movimento de libertação palestiniano e as consequências de experiências utópicas na ex-Jugoslávia, no Líbano do pós-guerra e no Portugal rural. O que une estes cineastas é menos um tema do que um conjunto de contra-correntes partilhadas: a recusa em conceber a imagem como mera prova documental; a memória como trabalho de desorientação coletiva e a criação de transes visuais e sónicos capazes de reativar uma sensibilidade entorpecida por feitiços algorítmicos.
Estes filmes resistem a uma tradução para a gramática audiovisual dominante e exigem dos seus espectadores algo que a atual economia da imagem desencoraja ativamente: arriscar contrafeitiços capazes de sacudir os nossos corpos e levá-los a movimentos.
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Annalisa D. Quagliata Blanco (1990, Veracruz, México) é uma artista visual e cineasta cujos filmes e instalações exploram o corpo humano e o retrato como espelhos de diferentes estados de ser, abrangendo as esferas pessoal, social e política. Tem um interesse particular no cinema analógico e feito à mão como meio para captar a poética da luz, da materialidade e da imagem em movimento. A sua primeira longa-metragem, “Aoquic iez in Mexico! Mexico will no longer exist!”, estreou-se em 2024.
Quagliata Blanco cresceu na Cidade do México e viveu em Taiwan, Nova Iorque e Boston, onde se licenciou no Massachusetts College of Art and Design. Atualmente, Quagliata Blanco vive e trabalha na Cidade do México.
Camilo Restrepo (1975, Medellín, Colômbia) realiza filmes na intersecção entre o documentário, a performance, e o cinema experimental.
Usando recursos estilísticos minimalistas e de técnicas analógicas, as escolhas formais e os métodos de produção de Restrepo articulam-se com os temas explorados na sua filmografia: os protagonistas personificam formas de resistência contra a sociedade dominante. Trabalhando principalmente em 16mm, Restrepo encarrega-se da maioria das etapas da produção: filmagem, revelação de negativos, e montagem. Até à data, a filmografia de Restrepo compreende oito curtas-metragens e duas longas-metragens.
Restrepo é membro do coletivo L’Abominable, que funciona como um laboratório de produção cinematográfica independente, especializado na produção em celulóide e na revelação de filmes. Formado em 2004 pela École des Beaux-Arts de Paris, Restrepo vive em França desde 1999.
José Álvaro Morais (1943-2004) foi um realizador e escritor português, que trabalhou entre a docuficção e a ficção. Recorrendo frequentemente ao humor e à ironia, os filmes de Álvaro Morais refletem tanto sobre a história como sobre o mito, abordando de forma lúdica temas como o do “Sul” e as mudanças na sociedade portuguesa desde a Revolução dos Cravos. Álvaro Morais é conhecido por filmes como “O Bobo” (1987), “Zéfiro” (1993), “Peixe-Lua” (2000) e “Quaresma” (2003).
Marta Popivoda (Berlim/Belgrado) é cineasta, artista e investigadora. O seu trabalho explora as tensões entre a memória, a história e a ideologia, bem como as relações entre corpos coletivos e individuais. Aborda estes temas a partir de uma perspetiva feminista e queer e valoriza a prática coletiva na criação artística e na investigação. Durante vinte anos, fez parte do coletivo TkH (Walking Theory). No seu trabalho recente, Popivoda recorre à dramaturgia paisagística, à narrativa feminista e à lentidão radical para criar cenas de memória antifascista e ecofeminista. É professora de cinema na Universidade das Artes de Amesterdão e é membro da European Film Academy.
Mohamed Soueid (Beirute, 1959) é um escritor, realizador e produtor libanês, pioneiro do cinema não narrativo e de não-ficção no Líbano do pós-guerra. Realizou o seu primeiro filme, “Absence” (Ghiyab), em 1990, e pouco depois integrou a equipa de TéléLiban, o principal canal de televisão público do Líbano, onde realizou documentários, séries dramáticas, e curtas-metragens experimentais, incluindo “Cinema Fouad” (1993), “Destinée” (1996) e “Being Camilia. ” Começou a trabalhar na sua trilogia autobiográfica, poética e crua, “Tango of Yearning” (Tango al-Amal, 1998), “Nightfall” (“Indama Ya’ti al-Masa”, 2000) e “Civil War” (Harb Ahliyyah, 2002), enquanto ainda estava na TéléLiban.
Como crítico de cinema, romancista e dramaturgo, é autor de vários livros sobre o cinema libanês e árabe, incluindo “A Postponed Cinema: Lebanese Civil War Films” (Beirute: Instituto de Estudos Árabes, 1986), “Oh My Heart; Uma História dos Cinemas na Antiga Beirute” (Beirute: An-Nahar, 1996), tendo publicado um romance intitulado “Cabaret Souad” (Dar al-Adab, 2004).
Através de uma obra diversificada que abrange cinema, fotografia e texto, Oraib Toukan (1977, Boston) explora interpretações alternativas, nativas e vernáculares das imagens, recorrendo frequentemente à língua árabe. Até 2019, foi bolseira Clarendon na Universidade de Oxford, na Ruskin School of Art, onde concluiu o seu doutoramento. Atualmente, leciona no programa de Mestrado em Belas Artes do Bard College, em Nova Iorque, e foi bolseira de investigação em prática artística no EUME, em Berlim, até 2026, bem como no Instituto Harun Farocki. É autora dos livros “Sundry Modernism: Materials for a Study of Palestinian Modernism” (Sternberg Press, 2017) e “Things Bigger Than What Can Be Seen” (Archive Books, 2026).